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Fernando Nonato, um
jovem brasileiro pai de seis filhos, casado com Dayany desde os
dezessete anos, estava em sua casa de alvenaria em uma área invadida
há mais de dez anos por moradores em teto quando o funcionário dos
Correios bate a sua porta com um grande envelope, devidamente lacrado,
o envelope era diferente de todas as correspondências recebidas por
Nonato até aquela data, cordial como sempre, o jovem atendeu o
carteiro e tentou interrogá-lo sobre o conteúdo da correspondência,
mas com pressa o carteiro tratou de colher sua assinatura e foi logo
se despedindo. Fernando havia pedido demissão de seu emprego há trinta dias,
descobriu que com o auxilio que ganhava do governo, que havia
aumentado com o nascimento de sua última filha, ele poderia sobreviver
apenas fazendo bicos de “olhador de carros” na frente de um teatro no
centro da cidade, assim, não teria horário, nem patrão, nem chefe. Fernando não via a hora de abrir a correspondência, tentava imaginar o
que era aquilo, da última vez que recebeu um envelope que tinha que
assinar, foi um cartão do bolsa família com um novo logotipo do
governo federal, mais bonito e colorido, Fernando havia gostado. Quando abriu, restou-se um pouco frustrado, pois era exatamente o que
esperava, um cartão com o brasão do governo federal, um pouco
diferente do anterior, assim, pensou que era apenas uma substituição
do cartão que já utilizava, sendo apenas um artifício que ele já havia
sacado em vésperas eleitorais do governo, para agradar o cidadão e
ganhar votos. Fernando jogou o novo cartão em cima de uma caixa que havia ganhado de
um cliente quando ainda trabalhava no lava rápido e continuou
assistindo a novela da tarde com sua esposa, cada um em uma poltrona
que apesar de serem individuais, serviam para deitar, com as
adaptações feitas pelo tempo. Dois dias depois, era dia de usar o cartão, Fernando já fazia as
contas para ver se juntando com outros benefícios que recebia, poderia
utilizar uma parte para comprar salsicha, pães e bebidas para uma
festinha de aniversário de seus filhos gêmeos. Seria coisa simples,
algumas guaranás de dois litros, um grande pacote de salsicha e alguns
pães, certo de que como nos outros aniversários, sua cunhada que
trabalhava em uma padaria lhe arrumaria mais pães, e ao final, se
sobrasse, compraria meia dúzia de cerveja para tomar com um vizinho e
amigo que sempre o convidara para reuniões. Fernando tinha muitas dificuldades financeiras, queria aproveitar a
vida, mas nunca esqueceu de nenhum aniversário de seus filhos. Pegou o cartão e foi ao mercado, além do cartão tinha uma reserva em
dinheiro, que receberá dos donos de carros que “olhou” na sexta e
sábado anterior, em uma peça que ele já não lembrava o nome, mas que
trazia alguns atores daquela novela da tarde que assistia. Quando chegou ao mercado, como de costume foi ao gerente, queria
verificar o saldo de seu cartão e ver se o benefício referente ao
filho mais novo já havia caído, quando para sua surpresa foi informado
que aquele não era o cartão do bolsa família. Fernando ficou assustado e começou a duvidar do gerente, educadamente
ria, mas sua vontade era chamar o gerente por um nome não muito
elegante e mostrar que estava errado, pois havia o brasão do governo. O gerente explicou que aquele era um cartão de crédito em nome de
Fernando, e tinha mesmo a assinatura do governo federal, ao que
grafava “ cartão corporativo”, o gerente continuou dizendo que havia
um telefone para desbloqueio e informações, assim sendo, com grande
cordialidade o dirigente daquele modesto mercadinho pegou o telefone e
ligou, auxiliando seu cliente. Durante a ligação, pediu o número do CPF e data de nascimento de
Fernando, e quando terminou a ligação olhou incrédulo para seu cliente
impaciente. Demorou quase uma hora explicando, mas ao final Fernando entendeu e
abriu um grande sorriso, descobriu que foi escolhido entre milhões de
brasileiros para receber um cartão de crédito corporativo, sim,
igualzinho aos dos servidores mais próximos do Presidente, para gastar
com o que precisasse. Os limites ele não entendeu bem, mas o gerente
lhe explicou que ao invés de qualquer refrigerante ele poderia comprar
“Cola Cola” para a festa de seu filho, e no lugar da salsicha, deveria
levar picanha. Na verdade, o Governo, após inúmeras denúncias de irregularidades no
uso do tal cartão corporativo, decidiu de bom grado, e num gesto que
demonstra a preocupação com o pobre, sortear um brasileiro para
receber um de seus cartões, dividindo assim as benesses do poder com
um do povo, mostrando mais uma vez que agora sim, o povo tinha vez. Fernando não queria saber muito disso, apenas queria uma grande festa
para seus filhos e saber se poderia comprar uma TV grande, além de um
opala de outro vizinho, mesmo sabendo que os documentos do carro
estavam atrasados desde mil novecentos e noventa e oito. Nem tudo foi festa na nova vida do sortudo em tela.
Continua ... |